Rev. Filosofía Univ. Costa Rica, LXIV (169) Mayo-Agosto 2025 / ISSN: 0034-8252 / EISSN: 2215-5589
Hudson Silva Lourenço
Jesus Histórico: Uma perspectiva multidisciplinar e a estética nas imagens ocidentais do Sagrado
Resumo: Este artigo examina a discrepância entre o Jesus histórico e suas representações na arte ocidental, transformado esteticamente para refletir traços europeus. Baseando-se nas análises de John P. Meier e em estudos histórico-críticos de Antonio Piñero, Fernando Bermejo Rubio e outros, discutimos o papel ideológico dessas imagens no reforço de uma hegemonia eurocêntrica. Com suporte da estética filosófica, argumentamos pela necessidade de reavaliar essas representações também no contexto religioso, promovendo uma estética inclusiva e historicamente precisa, que reflita melhor a diversidade cultural e ofereça uma imagem de Jesus significativa para comunidades marginalizadas.
Palavras-chave: Jesus Histórico, Estética, Hegemonia cultural, Eurocentrismo, Representação artística.
Abstract: This article examines the discrepancy between the historical Jesus and his representations in Western art, aesthetically transformed to reflect European traits. Drawing on the analyses of John P. Meier and the historical-critical studies of Antonio Piñero, Fernando Bermejo Rubio, and others, we discuss the ideological role of these images in reinforcing Eurocentric hegemony. Supported by philosophical aesthetics, we argue for the need to reassess these representations in the religious context as well, advocating for an inclusive and historically accurate aesthetic that better reflects cultural diversity and provides a meaningful image of Jesus for marginalized communities.
Keywords: Historical Jesus, Aesthetics, Cultural hegemony, Eurocentrism, Artistic representation.
Considerações iniciais
Este artigo introduz questões iniciais da tese de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PpgCS) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), explorando criticamente a estetização eurocêntrica de Jesus Cristo, como apontado pela crítica decolonial1. Essa abordagem de tradição eurocêntrica, que distorce a realidade histórica e reforça a hegemonia cultural, perpetua uma representação de Jesus Cristo marcada por traços europeus, desviando-se de uma imagem historicamente precisa e excluindo outras identidades culturais. A partir dos estudos de John P. Meier sobre o Jesus histórico e das análises crítico-históricas de Antonio Piñero, Fernando Bermejo Rubio, José Montserrat Torrents e Francisco García Baján, questionamos a validade e o impacto dessas representações.
Paradoxalmente, essa afirmação reflete a complexidade e a multiplicidade das imagens de Jesus ao longo da história. A fim de questionar a imagem eurocêntrica de Jesus Cristo, objetivando projetar uma teologia relevante e mais inclusiva, e significativa para diferentes comunidades ao redor do mundo, propomos com este artigo reimaginar teoricamente essas imagens a fim de refletir a diversidade global. Ao desafiar a imagem eurocêntrica de Jesus, imaginamos ser possível abrir caminhos discursivos para uma compreensão inclusiva, essa em que Jesus fortalece a identidade de grupos historicamente marginalizados, proporcionando uma imagem do sagrado que ressoa com suas próprias experiências e realidades, experienciadas estritamente tomando como referência o seu tempo, a Palestina do século I.
À vista disso, propomos analisar três das representações artísticas sobre Jesus Cristo, questionando o contexto histórico-artístico no qual essas imagens ocidentais são fabricadas2, com base no conceito de estética na Filosofia, discutida por pensadores como Theodor Adorno, Rafael Haddock-Lobo, Jean Lacoste e Maria Reicher. Argumenta-se que essas imagens refletem e reforçam relações de poder e dominação cultural, que abrange mais do que a simples apreciação do belo3. A estética, envolve a interpretação de significados, a crítica de formas culturais e a compreensão das funções simbólicas mobilizadas através de representações elaboradas conscientemente com base em percepções pessoais e de grupos específicos.
Introduzindo a construção do Jesus Histórico: Uma perspectiva multidisciplinar
Argumenta-se, que para uma análise profunda sobre o Jesus histórico, é imprescindível considerar tanto as abordagens confessionais quanto as não confessionais, permitindo uma compreensão mais ampla do impacto histórico e simbólico de sua figura. John P. Meier, um dos principais teóricos na construção do Jesus marginal, fornece uma leitura detalhada sobre como Jesus se destacava por sua associação com grupos socialmente excluídos da Palestina do século I. Meier descreve Jesus como um judeu marginal, alguém que, ao se aliar aos pobres e aos doentes, acabou antagonizando as elites religiosas e políticas de sua época. Embora esse retrato ofereça um aprofundamento no cenário cultural e religioso em que Jesus se inseria, a análise de Meier, por vezes, prioriza uma compreensão mais teológica e cultural, minimizando a insurgência política e o potencial de resistência ativa.
A compreensão do Jesus histórico envolve o uso de métodos histórico-críticos que buscam desvelar aspectos da vida e personalidade de Jesus de Nazaré a partir de um prisma mais próximo ao rigor científico, explorando o contexto sociopolítico e cultural da Palestina do século I. Esse tipo de análise, essencial para uma avaliação não confessional, considera Jesus como figura histórica, um judeu palestino, sem pretensões apologéticas ou teológicas que se sobreponham aos dados disponíveis. Objetivamos com esta seção tratar estritamente sobre o retrato espacial sobre o Jesus histórico segundo a concepção do teólogo John P. Meier (1991; 1992), este que destaca a complexidade histórica e sociocultural de Jesus, apresentando-o como uma figura que frequentemente desafiava as normas e expectativas da sociedade de sua época.
Entrementes, acerca do cenário social e político da Palestina do século I, no tempo de Jesus de Nazaré, estudos demonstram que ele foi marcado por profundas questões complexas e diversos fatores sociais, políticos, religiosos e culturais. A Palestina, enquanto província do Império Romano, conquistada por volta do século I a.C, era governada por governadores romanos que exerciam uma dominação política sobre aquela região. A Palestina nessa época «[...] possuía uma extensão de terra mediana, era uma estreita área situada entre a África e a Ásia, funcionando como uma espécie de ponte entre essas regiões» (Frazão apud Bastos 2009, 105). O autor ainda ressalta que «[...] a Palestina passa a fazer parte do Império Romano. Herodes, o Grande (37- 4 a.C.) obtém de Roma o título de Idumeu, rei da Judéia [...] durante a vida de Jesus, a Palestina foi governada, principalmente, pela Dinastia Herodiana» (Bastos 2009, 105).
Ademais, Meier (1991), com base em uma aferição histórica, reconstrói todo um cenário político-social no qual o Jesus de Nazaré supostamente esteve inserido. Além disso, o teólogo, com seu estudo pioneiro sobre o Jesus histórico como um judeu do século I na Palestina antiga, traz elementos que estão num jogo entre o externo (social) e o interno (individual), onde ambos se complementam e formam o cenário judaico antigo no entorno da figura marginal.
Podemos destacar inúmeras outras questões pertinentes no estudo de Meier que nos possibilitaria compreender a forma na qual o estudioso constrói a figura de Jesus sob um recorte marginal. Todavia, como objetivamos dialogar diretamente com o nosso leitor menos familiarizado com a temática, fizemos uma seleção de trechos importantes que nos permitem entender como Meier figura Jesus como um marginal. Meier sublinha sua origem judaica, suas associações diretas com os marginalizados, seus conflitos com a elite religiosa de seu tempo e sua execução como um criminoso comum.
Na concepção de John P. Meier, o Jesus histórico é retratado como uma figura marginal em diversos aspectos de seu contexto social e religioso. Meier apresenta Jesus como um judeu do século I que vivia na Palestina, uma figura que constantemente desafiava as normas sociais e religiosas ao se associar com os pobres, doentes e marginalizados, e cuja mensagem de compaixão e inclusão o colocou em conflito com as elites religiosas e políticas. Meier enfatiza que esse Jesus, embora judeu, era visto com desconfiança e hostilidade pela elite de sua época, acabando por ser executado pelos romanos como um criminoso comum. Esse retrato, embora detalhado, mantém uma perspectiva que considera a marginalização de Jesus mais como uma característica individual do que como resultado de uma postura abertamente insurgente contra o sistema de dominação.
É importante ressaltar que o termo Jesus histórico se refere ao saber cientificamente sobre Jesus. Portanto, ele diz respeito ao
[...] Jesus que podemos resgatar, retomar ou reconstituir, utilizando os instrumentos científicos da moderna pesquisa histórica. Considerando-se o estado fragmentário de nossas fontes e a natureza muitas vezes indireta dos argumentos que devemos usar, este “Jesus histórico” será sempre um constructo científico, uma abstração teórica que não coincide, nem pode coincidir, com a realidade plena do Jesus de Nazaré que de fato viveu e trabalhou na Palestina no primeiro século de nossa era. (Meier 1992, 11)
Para compreender a figura histórica de Jesus, é essencial reconhecer seu contexto como um judeu característico da Palestina do século I. Ele nasceu, viveu e morreu como judeu, e isso moldou profundamente suas crenças, práticas religiosas e visão de mundo, todas profundamente enraizadas no judaísmo de seu tempo.
Em contraponto, autores como Fernando Bermejo Rubio e Antonio Piñero, com uma abordagem não confessional e com uma perspectiva crítica, ampliam essa leitura ao considerar Jesus como um agente ativo de resistência. Bermejo Rubio, em particular, enfatiza que Jesus não apenas se posicionava ao lado dos marginalizados, mas também adotava uma postura subversiva, desafiando abertamente as autoridades religiosas e romanas. Bermejo e Piñero questionam a suavização de sua figura como marginal e, ao contrário, o veem como alguém cujo impacto e ensinamentos tinham o potencial de gerar conflitos diretos com o status quo.
José Montserrat Torrents e Francisco García Baján, igualmente afastados de uma abordagem confessional, enfatizam a natureza histórica e cultural do caráter de Jesus. Montserrat Torrents descreve-o como um homem de profunda influência social, cuja mensagem, «[...] embora vista como carismática, não está dissociada de sua cultura judaica e dos desafios políticos de sua época» (1989, 38, tradução nossa). García Baján reforça essa perspectiva ao contextualizar Jesus em uma Palestina oprimida pelo Império Romano, apontando que «[...] suas palavras não poderiam ser apolíticas em um contexto de dominação» (2005, 101, tradução nossa). Essas abordagens sugerem um Jesus que não apenas simboliza a marginalidade, mas que se posiciona como uma ameaça ativa contra as forças coloniais e religiosas.
Enquanto John P. Meier, em sua análise detalhada, apresenta Jesus como uma figura marginalizada em um sentido mais estrutural, os autores críticos não confessionais propõem uma interpretação que amplia o papel de Jesus em seu contexto. Eles o veem não apenas como marginal, mas como alguém que, por sua própria mensagem e ações, atraiu confrontos com o status quo e as estruturas de dominação. Essa leitura fornece um retrato multifacetado e dinâmico, que integra tanto a análise de Meier quanto uma perspectiva de resistência ativa, desenhando um Jesus imerso em um contexto de opressão colonial.
Retomando, conforme o estudo de Meier (1991; 1992), a interação de Jesus com os marginalizados da sociedade é um aspecto notável e particular de sua vida. Ele frequentemente se associava aos pobres, doentes e proscritos, o que o distanciava ainda mais da elite religiosa e social da época. Essa escolha deliberada de companhia sublinhava sua postura inclusiva e desafiadora perante as normas sociais vigentes. Assim
[...] Jesus se destacava por sua associação com os marginais da sociedade. Ele frequentemente se aproximava dos pobres, dos doentes, dos pecadores e dos proscritos. Essa escolha deliberada de companhia marginalizava ainda mais sua figura aos olhos da elite religiosa e social de seu tempo. (Meier 1991, 45, tradução nossa)
Além disso, Jesus era amplamente reconhecido como profeta e curandeiro, conforme aponta Meier (1991, 103), mas sua interpretação e execução dessas funções diferiam significativamente das expectativas convencionais. Suas ações e ensinamentos muitas vezes contrariavam as expectativas messiânicas tradicionais e as normas religiosas estabelecidas, colocando-o em constante conflito com as autoridades religiosas.
[...] Jesus era visto como um profeta e curandeiro, mas seu entendimento dessas funções era radicalmente diferente do convencional. Suas ações e ensinamentos frequentemente iam contra as expectativas messiânicas tradicionais e as normas religiosas estabelecidas, o que o colocava em constante conflito com as autoridades. (Meier 1991, 103, tradução nossa)
Para compreendê-lo como uma figura marginal, é indispensável entender a rejeição de Jesus pelas autoridades religiosas de seu tempo. Assim, «[...] suas críticas ao Templo e à elite religiosa de Jerusalém evidenciam um confronto direto com o centro do poder religioso, marcando-o como uma ameaça e, consequentemente, marginalizando-o (Meier 1991, 212, tradução nossa).
A crucificação de Jesus pelos romanos representa a culminação de sua marginalização. A crucificação era a punição destinada àqueles que eram considerados desviantes4, aos criminosos mais baixos e insurgentes, indicando que Jesus era visto como uma ameaça séria à ordem pública tanto pelos judeus quanto pelas autoridades romanas, conforme considerou Meier (1991, 270).
A análise de José Montserrat Torrents acrescenta uma perspectiva humanista, enfatizando que a influência de Jesus advém de seu carisma e de seu impacto na vida de seus seguidores, sem uma conotação sobrenatural. Montserrat Torrents argumenta que «[...] Jesus deve ser compreendido dentro das dinâmicas humanas de seu tempo, onde sua mensagem tocava o coração das pessoas sem necessitar de interpretações milagrosas» (1989, 62, tradução nossa). Francisco García Baján contribui situando Jesus em um cenário de dominação romana, onde qualquer mensagem que pregasse igualdade ou desafiasse a ordem era inevitavelmente uma afronta às autoridades. Para García Baján, «[...] o contexto romano não permitia uma pregação neutra de Jesus; a sua mensagem era, por natureza, política e de resistência» (2005, 45, tradução nossa).
Esses autores revelam um quadro no qual a marginalidade de Jesus não é uma condição de submissão, mas uma expressão de resistência. O Jesus que emerge da leitura de Bermejo Rubio e Piñero é menos um profeta isolado e mais um personagem politicamente engajado, que desafiava as estruturas opressivas do Império Romano e da elite religiosa. Esse contraponto é fundamental, pois ressalta como as interpretações confessionais tendem a suavizar as ações de Jesus, ignorando o potencial revolucionário de sua mensagem. Meier, ao focar em Jesus como marginal no sentido estrutural, traz uma análise rica de suas interações sociais, mas, ao não destacar sua oposição ativa, talvez desconsidere a profundidade de sua resistência.
A questão ganha ainda mais complexidade ao ser discutida sob uma ótica contemporânea, como no caso da estética na Filosofia. Quando pensadores como Theodor Adorno e Rafael Haddock-Lobo analisam o poder da representação cultural, eles argumentam que as imagens e discursos construídos em torno de figuras históricas não são neutros. Adorno vê a arte como um espaço onde as contradições da sociedade se manifestam, e a representação de Jesus como um judeu marginal no imaginário cristão ocidental reflete e reforça uma visão conciliadora que ignora a crítica e a subversão inerentes a sua mensagem. Essa leitura é alinhada com a análise de Piñero e Bermejo Rubio, que reconhecem na figura de Jesus uma potência de resistência cultural e social que, segundo Haddock-Lobo, «[...] é muitas vezes neutralizada para se adequar a ideais dominantes» (2010, 51).
Conforme sugerido, pensemos que o diálogo entre as perspectivas confessionais e não confessionais nos fornece um retrato multifacetado da figura de Jesus, questionando as limitações e os vieses impostos por diferentes tradições interpretativas. A figura de Jesus, longe de ser um personagem singularmente marginalizado, é, na análise de autores como Bermejo e Piñero, uma figura de insurgência ativa, que se opunha não apenas às elites de seu tempo, mas a um sistema de opressão imperial que ele desafiava por meio de suas palavras e ações. Tal contraponto enriquece o estudo acadêmico e aponta para a importância de uma análise que integre tanto os elementos sociais e religiosos quanto o contexto político e econômico, permitindo uma compreensão mais abrangente e crítica da complexa figura de Jesus de Nazaré.
A análise das representações de Jesus à luz das perspectivas de John P. Meier, Antonio Piñero e Fernando Bermejo Rubio, em diálogo com a crítica estética de Theodor Adorno e Rafael Haddock-Lobo, evidencia a complexidade e a ambivalência dessa figura no imaginário ocidental. Enquanto Meier desvela a discrepância entre o Jesus histórico e suas representações artísticas, Piñero e Bermejo Rubio ressaltam a potência de resistência cultural e social que Jesus encarna, uma figura que desafia não apenas as elites de seu tempo, mas também os sistemas de opressão imperial. Assim, o retrato de Jesus, longe de ser meramente marginalizado, revela uma insurgência ativa que, ao ser transformada esteticamente, é frequentemente neutralizada para se adequar a ideais dominantes, refletindo e reforçando discursos de poder e identidade cultural.
A intersecção dessas análises convida a uma reflexão crítica que busca compreender como as narrativas visuais e textuais do Jesus de Nazaré são moldadas por contextos sociopolíticos e ideológicos, ressaltando a importância de uma abordagem multidimensional que respeite a complexidade da sua figura.
Estética e representação ideológica: Teóricos da estética
A estética, como campo filosófico, propõe explorar a natureza da arte, da beleza e do gosto, bem como a gênese da criação e a apreciação daquilo que é examinado como belo. É de particular relevância para esta seção uma análise aprofundada da perspectiva de pensadores como Theodor Adorno, Rafael Haddock-Lobo, Jean Lacoste e Maria Reicher, destacando suas convergências e divergências. A estética filosófica explora a relação entre arte, beleza e gosto, mas também serve como ferramenta crítica para entender a sociedade e suas contradições. Autores como Theodor Adorno (1982), Rafael Haddock-Lobo (2010), Jean Lacoste (2011) e Maria Reicher (2009) oferecem perspectivas fundamentais para analisar a construção eurocêntrica das representações de Jesus Cristo na arte ocidental.
Para começar, Theodor Adorno (1982) sugere que a estética é um espaço de expressão das tensões entre autonomia artística e pressões sociais. Nesse contexto, a arte não apenas reflete essas contradições, mas também pode servir para reforçar ou desafiar ideologias. Assim, a estetização europeizada de Jesus se torna um exemplo claro de como a arte foi mobilizada para estabelecer uma hegemonia cultural, promovendo uma visão que exclui e marginaliza outras etnias. Além disso, Rafael Haddock-Lobo (2010) amplia a discussão ao conectar a estética com o poder e o discurso. Segundo ele, a arte e a estética não apenas moldam, mas também perpetuam ideologias, tornando-se instrumentos para consolidar identidades culturais e narrativas de dominação. Nesse sentido, a imagem de Jesus com traços europeus não é uma simples questão de preferência artística, mas um meio poderoso de transmitir e naturalizar ideias de superioridade cultural.
Prosseguindo com essa linha de pensamento, Jean Lacoste (2011) analisa a relação entre arte e verdade, argumentando que a estética pode tanto revelar quanto distorcer a realidade. Assim, as representações de Jesus na arte ocidental evidenciam mais os valores e as ideologias das sociedades que as produziram do que qualquer traço historicamente verificável do Jesus histórico. Dessa forma, Lacoste reforça a ideia de que as imagens ocidentais de Jesus estão profundamente enraizadas nos conceitos culturais e ideológicos dos artistas.
Por fim, Maria Reicher (2009) foca na função simbólica da arte, ressaltando como a estética constrói significados que moldam identidades sociais e culturais. Nesse aspecto, a criação de imagens de Jesus não busca necessariamente refletir a realidade histórica, mas atua como um campo de disputas simbólicas em que valores específicos são transmitidos e reforçados.
Portanto, ao articular as ideias desses teóricos, percebe-se que a estetização de Jesus Cristo na tradição ocidental transcende questões meramente artísticas. Trata-se de uma prática ideológica que reflete narrativas de poder, distorce a diversidade cultural e marginaliza outras identidades, ao mesmo tempo em que reforça ideais eurocêntricos que continuam a impactar a percepção do sagrado e do humano.
Tanto Adorno quanto Haddock-Lobo veem a estética como intimamente ligada ao poder. Enquanto Adorno enfoca a arte como uma forma de resistência às pressões da sociedade capitalista, Haddock-Lobo vê a estética como uma ferramenta para a perpetuação de ideologias dominantes. A similaridade entre os pensadores é detectada tendo em vista que ambos reconhecem o papel fundamental da arte e da estética na construção de contestação de narrativas de poder. No entanto, embora Adorno coloque mais ênfase na capacidade da arte de resistir a essas narrativas, Haddock-Lobo analisa como as representações artísticas podem servir a interesses hegemônicos.
Estética e Verdade, são melhor detectadas nos estudos de Adorno e Lacoste. Ambos compartilham a visão de que a arte tem uma relação especial com a verdade. Adorno vê a arte como uma forma de crítica social que pode explorar as contradições da sociedade, enquanto Lacoste argumenta que a estética revela aspectos ocultos da realidade. Entretanto, ambos autores consideram a arte como um meio no qual possibilita acessar a compreensão mais profunda da realidade, mas Adorno adiciona uma dimensão crítica explícita, focando na capacidade da arte de desafiar a ideologia dominante. Esta última questão põe em voga nosso objetivo com esse estudo, que é a nossa partida sobre a necessidade de uma reavaliação dessas representações também no contexto religioso, para promover uma estética representativa de uma determinada comunidade, além de inclusiva e precisa em aspectos históricos.
Reicher e Haddock-Lobo concordam que a estética desempenha um papel crucial na formação de identidades. Dessa forma, Estética e Identidade, aparecem nesses dois estudos. Reicher foca na função e dimensão simbólica das imagens e como elas ajudam a criar e sustentar identidades coletivas. Já Haddock-Lobo, por outro lado, enfatiza como a estética é usada para moldar e naturalizar identidades culturais através de narrativas de poder. Ambos reconhecem que a arte e a estética não são neutras, mas sim campos de disputa e construção de determinados tipos de significado.
Ao examinar e apresentar de forma detalhada as concepções de estética de Adorno, Haddock-Lobo, Lacoste e Reicher, podemos ver uma convergência em torno da ideia de que a arte e a estética são profundamente influentes na formação de significados sociais e culturais. Embora que de maneiras diferentes, todos os autores, reconhecem que a estética se apresenta enquanto um campo onde se travam batalhas simbólicas e ideológicas. Além de possibilitarem versar suas contribuições a um estudo multidisciplinar, com base em uma compreensão multifacetada do papel da estética na sociedade em diferentes contextos.
Nas Artes Ocidentais, a representação de Jesus Cristo está longe de ser hegemônica e historicamente precisa
Nas artes ocidentais, a representação de Jesus Cristo não é hegemônica nem historicamente precisa, tema que atravessa séculos e conecta dimensões históricas, culturais, artísticas e teológicas. Estudos sobre o Jesus histórico, como os de John P. Meier, John Dominic Crossan e André Leonardo Chevitarese, distinguem Jesus como figura histórica do objeto de fé, destacando seu contexto judaico-palestino sob o domínio romano, utilizando métodos históricos-críticos para reconstituir sua vida. Contudo, o contexto eurocêntrico influenciou a representação de Jesus, desviando-o de suas características históricas, como sugerido por estudos antropológicos, que apontam traços típicos de um judeu do Oriente Médio do século I.
A perspectiva histórica sobre o Jesus histórico busca distinguir o objeto de fé da figura histórica, analisando-o como um judeu palestino do século I, vivendo sob o domínio romano. Pesquisadores como John P. Meier, John Dominic Crossan e André Leonardo Chevitarese utilizam métodos histórico-críticos para reconstituir sua vida, com base em textos bíblicos, escritos judaicos e romanos, além de achados arqueológicos. Esses estudos enfatizam sua condição sociopolítica e cultural, traçando um perfil que o apresenta como um pregador itinerante, defensor da justiça social, e como figura histórica separada das tradições teológicas posteriores.
É importante ressaltar que há nesses estudos de caráter histórico e ético sobre Jesus, uma tentativa em separar teoricamente o Jesus Cristo, o objeto de fé que rege toda uma tradição cristã entre o Jesus histórico, o objeto fruto de estudos acadêmicos. Vale ressaltar que tal tentativa já se encontra consolidada no campo de pesquisa sobre o Jesus histórico, e ela é crucial para entender as variações nas representações de Jesus e sobre qual se objetiva dar ênfase5.
Quando se trata sobre precisão histórica, esses três estudiosos proeminentes que contribuíram significativamente para o estudo do Jesus histórico em seu contexto cultural e religioso da Palestina do século I, todos eles traçam um perfil no qual o Jesus histórico é retratado teoricamente como um judeu palestino, um homem qualquer que viveu naquela época, e vivendo sob domínio romano. Nota-se nesses estudos, pontos em comum entre eles. Os três se utilizam do método histórico-crítico para estudar a figura de Jesus. Portanto, eles buscam entender Jesus no contexto histórico do século I, na Palestina, utilizando de uma variedade de fontes, incluindo textos bíblicos, escritos judaicos e romanos da época, bem como achados arqueológicos. Esses que possuem maior ênfase nos estudos de André Chevitarese.
Cada estudioso, com sua contribuição singular, parte de um princípio metodológico em prol de uma reconstrução histórica mais aproximada de Jesus. André Chevitarese, em seus estudos sobre o cristianismo primitivo e o contexto histórico e social do século I, explora a vida de Jesus dentro desse contexto judaico e sob quais condições sócio-políticas da época ele pode ser lido. Já Dominic Crossan, parte de uma perspectiva histórico-crítica e sociológica para a reconstrução da vida de Jesus. Ele enfatiza Jesus como um pregador itinerante que defendeu a justiça social e desfiou as autoridades estabelecidas com suas práticas inofensivas.
John P. Meier, o pioneiro dos estudos sobre Jesus como um judeu, possui uma análise extensa e criteriosa das fontes históricas sobre Jesus. É um estudo multidisciplinar, rico em detalhes e um uma longa narrativa que busca distinguir entre o que pode ser historicamente verificado sobre Jesus e o que pertence à tradição teológica posterior.
Para finalizar esta parte, apesar das diferenças metodológicas e de foco, André Chevitarese, John Dominic Crossan e John Piper Meier, compartilham um compromisso em comum, que é com a investigação acadêmica rigorosa e objetiva da figura histórica de Jesus. Seus trabalhos para entender Jesus dentro de seu contexto histórico, separam os fatos históricos das tradições teológicas, e fornecem uma imagem mais aproximada, com base em uma aferição histórica e, precisa, de um dos personagens mais influentes de toda a história da humanidade.
Uma questão controversa
Primeiramente, gostaria de chamar a atenção para um questão controversa que diz respeito a aparência física de Jesus. Não há descrições estritamente físicas de Jesus nos textos dos evangelhos. A suposição histórica, com base em achados arqueológicos e estudos antropológicos (Antropologia Forense), poderá sugerir que esse homem histórico teria traços típicos dos judeus daquela região e época, ou seja, do Oriente Médio. Portanto, segundo uma concepção biológica, os aspectos de Jesus seriam de um homem de pele morena, cabelo escuro e encaracolado, estatura média (aproximadamente 1,60 m) de um homem judeu da época. E, talvez, olhos escuros, conforme a reconstituição facial forense de Cícero Moraes. Conforme abaixo.
Figura 1: Concepção artística do designer gráfico especialista em reconstituição facial forense
Cícero Moraes [...]. Fonte: BBC BRASIL, site da internet. Acesso em 01 de jul. 2024.
Jesus não foi um homem branco de traços europeus, como se consolidou na arte e religião ocidentais ao longo de séculos de eurocentrismo. Essa imagem, conforme Edison Veiga (2023), reflete uma transformação estética, ideológica e simbólica, destacada na arte renascentista de Leonardo Da Vinci e Michelangelo, que consolidou a hegemonia cultural europeia e promoveu uma visão de superioridade racial.
Tal representação eurocêntrica aliena culturas que não se veem refletidas nela, criando barreiras à inclusão na comunidade cristã. Durante o colonialismo, a figura europeia de Jesus foi usada como imposição cultural, justificando a colonização e acentuando a separação entre dominadores e dominados. O Jesus branco serviu como símbolo de poder e estratégia para atrair, aculturar e estabelecer normas europeias, moldando o sagrado em prol de interesses comerciais e políticos ocidentais.
O Eurocentrismo na Arte, marca esse lugar de imprecisão histórica. Artistas como Leonardo Da Vinci e Michelangelo, no Renascimento, representaram Jesus com traços europeus. Essa transformação não foi somente estética, mas também ideológica e simbólica. Representar Jesus com traços europeus, serviu para consolidar a hegemonia cultural europeia. O que promoveu, certamente, uma visão de superioridade racial e cultural por esta comunidade.
E quais seriam as consequências culturais? Essa representação eurocêntrica de Jesus pode alienar outras culturas e etnias que são se veem refletidas na imagem de seu salvador. Dessa forma, cria-se barreiras à inclusão e à aceitação dentro da comunidade cristã.
É interessante resgatar o contexto da era colonial. No colonialismo e missionarismo, a imagem europeia de Jesus foi exportada para outras partes do mundo, e não como uma forma de apreciação do sagrado, mas de imposição cultural e religiosa sobre outros povos. Ou seja, as imagens desse caráter, muitas das vezes esteve acompanhada por uma mensagem de superioridade cultural europeia, o que contribuiu para a imposição de valores e normas europeias sobre outras culturas.
O Jesus branco, foi para justificar a colonização. Seria impensável um Jesus negro na colonização. Ele, jamais poderia estar assemelhado aos menos favorecidos. Portanto, sua imagem precisou estar em uma categoria acima daquela comunidade majoritariamente menos favorecida. Jamais se representaria aqueles em que se objetiva dominar, sobrepor e aculturar. A imagem de um Jesus Cristo branco, em seus aspectos ideológicos, era também uma forma de demarcar territórios. Sobretudo, uma forma simbólica e de poder, utilizada para atrair ao dito belo. Portanto, a forma estética do sagrado foi utilizada para fins comerciais, mas também estratégicos do Ocidente. Que teve por finalidade transformar algo esteticamente belo a fim de que fosse aceito ou um produto de convencimento.
Perspectiva Teológica: O Jesus da História e o Jesus da Fé
Retomaremos a discussão sobre a distinção entre o Jesus histórico e o Jesus Cristo somente para questionar que a teologia cristã desenvolveu uma imagem de Jesus que transcende as limitações históricas e culturais. É crucial tal separação, uma vez que, após um longo esforço para distinguir, a conclusão é que são inseparáveis. Ambos compõem a mesma figura, a de Jesus de Nazaré.
O Jesus Cristo, objeto de fé, na teologia cristã, é visto como o Salvador universal, cujo sacrifício é para toda a humanidade. Essa visão transcende as particularidades históricas e culturais. Portanto, com base nesse entendimento, podemos mensurar que o Ocidente, ao fabricar a imagem de Jesus e pô-la em uma patamar superior, cometeu um crime com a própria humanidade. Pois as representações de Jesus, passaram a integrar esse contexto eurocêntrico, que priva outros povos e comunidades de se identificarem com a forma na qual o símbolo religioso possa ser. Em nossa avaliação e objetivo com este artigo, ressaltamos a necessidade de uma reavaliação dessas representações também no contexto religioso, para promover uma estética representativa de uma determinada comunidade, além de inclusiva e precisa em aspectos históricos.
A própria diversidade é encontrada dentro da Igreja Cristã, com diferentes tradições (Ortodoxa, Católica, Protestante). Todas oferecem visões distintas de Jesus. Porém, quando se atenta à estetização e as supostas imagens que retratam Jesus nessas tradições, vê-se que em todas elas, ele é apreendido e retratado frequentemente para reafirmar a visão que se tem naquele ambiente religioso. Onde sua representação em nada se aproxima de um judeu oriundo do Oriente Médio.
Perspectiva Artística: A multiplicidade de representações
Há uma multiplicidade de representações de Jesus que variam enormemente, dependendo do contexto artístico e histórico. Poderíamos demonstrar como a arte cristã têm evoluído, refletindo mudanças teológicas, culturais e estilísticas. Até mesmo, quando se trata do contexto de representatividade e inclusão no qual objetivamos tratar neste estudo.
Contudo, esperamos difundir a reimaginação dessas representações em um contexto contemporâneo e vindouro. Que se enquadra melhor no que chamamos no título deste artigo como acerto histórico. Acerto este que pode ser entendido como uma prestação de contas com a história de um povo marginalizado. Para isso, movidos por nossa concepção que busca superar o que foi representado tradicionalmente em um contexto de supremacia branca.
Abaixo, proponho apresentar 10 imagens que retratam artisticamente como, supostamente, seria Jesus Cristo, mas com base em concepções em contextos artísticos e históricos distintos. Sem uma análise aprofundada e, buscamos não parecer redundante com as palavras, iremos somente apresentar algumas imagens que não são as melhores para destacar a estetização de Jesus nesses contextos históricos. Elas servem para que possamos contrastar com a [FIG.1], a fim de questionar como as épocas interpretam e se relacionam com a figura de Jesus. Todavia, chamando a atenção para um contexto recente, no decurso do contemporâneo, em que se nota uma visão que explora temas de justiça social, inclusão e diversidade através das representações de Jesus. Contexto esse no qual damos ênfase neste estudo.
Jesus na Arte Bizantina:
Figura 2: Mosaico Bizantino de Jesus Cristo
Figura 3: Christ Pantocrator (Sinai). Autor desconhecido
Na Arte Medieval:
Figura 4: A Crucificação. ca. 1330-35. Artista Mestre do Códice de São Jorge
(Mestre do Codex De San George)
Figura 5: The Nativity with the Prophets Isaiah and Ezekiel, 1308-1311.
Duccio di Buoninsegna, Sienese, c. 1250/1255
Estilo românico e gótico na arte medieval:
Figura 6: The Temptation of Christ on the Mountain
(A Tentação de Cristo) - Duccio di Buoninsegna, c. 1308-11
No Renascimento:
Figura 7: La Résurrection du Christ
(A ressurreição de Cristo) - Nicolas Bertin (1730)
Na Arte Moderna e Contemporânea: Imagens Ocidentais
Figura 8: Salvator Mundi (Salvador do Mundo):
atribuída a Leonardo Da Vinci
Figura 9: O Batismo de Cristo:
Leonardo Verrocchio e Leonardo Da Vinci
Figura 10: Cabeça de Cristo:
Warner Sallman, séc. XX
O que podemos apontar sobre as três imagens ocidentais: [FIG.8]; [FIG.9]; [FIG.10]
Argumentei em outro trabalho, que essas imagens refletem e reforçam relações de poder e dominação cultural, o que abrange mais do que a simples apreciação do belo. A estética, envolve a interpretação de significados, a crítica de formas culturais e a compreensão das funções simbólicas mobilizadas através de representações elaboradas conscientemente com base em percepções pessoais e de grupos específicos.
Através do referencial teórico da Filosofia contemporânea, sobre o conceito de estética, nossos questionamentos são sustentados. Isso porque, apostamos em um estudo multidisciplinar que envolveu a interpretação de significados, a crítica de formas culturais e a compreensão das funções simbólicas da arte. Adorno (1982), Reicher (2009), Haddock-Lobo (2010) e Lacoste (2011), são pensadores que nos possibilitaram, respectivamente, enfatizar a crítica cultural e a capacidade da arte de desafiar as normas sociais e políticas; examinar a função simbólica da arte, considerando como as representações artísticas podem comunicar e reforçar valores culturais; explorar a função da estética e poder, analisando como as representações artísticas podem vir a servir a interesses hegemônicos e buscar entender como a arte revela profundidades da experiência humana.
A Salvador Mundi [FIG.8], atribuída a Leonardo Da Vinci, é uma obra que suscita diversas questões estéticas e teóricas, e elementos históricos que seriam melhor examinados por um(a) historiador(a) da arte. No entanto, nossa análise se pauta no referencial teórico de Theodor Adorno, Rafael Haddock-Lobo, Jean Lacoste e Maria Reicher. Esse que nos permite uma compreensão mais aprofundada de sua estética, significado simbólico e o impacto cultural que essas imagens permitem mensurar e questionar.
De forma geral, Salvador Mundi foi criada no Renascimento, um momento em que houve uma grande experimentação artística e intelectual, regida por novas formas de fazer arte. Conjecturamos que Leonardo Da Vinci, ao elaborar essa pintura de Jesus Cristo com uma expressão serena e misteriosa, não só apresentou uma visão com traços teológicos de um Cristo pacífico cuja mensagem salvadora é fortemente retratada. Mas também, uma profunda relação sobre a condição humana e o divino.
Talvez, possamos questionar essa pintura a partir da ideia defendida por Adorno de que a arte deveria ser autônoma e resistir às pressões do mercado e da sociedade de consumo. No entanto, optamos em ressaltar nesse estudo e nessa pintura, a realidade de expressar as tensões e sofrimentos da experiência humana, conforme Adorno destaca. Assim, o olhar de Cristo e a mão levantada em ato de bençãos, sugerem uma profunda meditação sobre a dualidade da natureza divina e humana de Cristo.
Já em Haddock-Lobo, podemos explorar como essa arte pode ser usada para promover ideologias dominantes, mas também como resistência às mesmas. O próprio conteúdo da pintura, exprime uma representação idealizada de Cristo, que pode ser vista como uma resistência aos valores seculares, afirmando uma visão espiritual que transcende as preocupações materiais. Talvez, ao representar Jesus Cristo com características humanizadas, Da Vinci desencadeou a possibilidade de poder interpretar a imagem do sagrado a partir de uma visão acessível do divino. Porém, não de inclusão de outras culturas. Reforçando apenas a cultural ocidental.
A pintura O Batismo de Cristo [FIG.9], de Andrea del Verrocchio, em colaboração com Leonardo Da Vinci, enquanto seu aprendiz, é uma obra significativa do Renascimento italiano. Podemos fazer algumas considerações dessa pintura com base em Reicher (2009) e Lacoste (2011). Respectivamente, consideramos os símbolos e significados que são mobilizados na arte. Reicher, analisa como a arte comunica esses elementos através da pintura. E essa imagem está repleta de simbolismo cristão, pois nela aparecem João Batista, Jesus, anjos e a descida do Espírito Santo em formato de uma pomba branca. A água do batismo simboliza purificação e renascimento espiritual. E enquanto Jesus adota uma postura submissa, reflete sua humildade e obediência divina.
Para Lacoste (2011), a estética e a verdade caminham de mãos dadas. Na pintura O Batismo de Cristo, pode-se destacar, com base nesse referencial teórico, a revelação de verdades espirituais e emocionais que transmitem uma verdade espiritual e teológica. Isso se questionarmos que essa pintura possa comunicar a pureza e a santidade do momento do batismo, usando a beleza estética para reforçar essas verdades reforçadas pelo contexto religioso do ato batismal.
Tanto em Reicher quanto em Lacoste, podemos sinalizar que a interpretação estética pode variar conforme os contextos históricos em que são fabricadas, mas sua capacidade de comunicar significados profundos e complexos permanece. E essa pintura, revela a profundidade e a complexidade da obra. Lacoste mostra como a estética pode revelar verdades profundas, e Reicher nos ajuda a entender a função simbólica da arte. Juntas, essas perspectivas oferecem uma compreensão rica e multifacetada da estética destra obra-prima renascentista.
A pintura Cabeça de Cristo [FIG.10], de Warner Sallman, é melhor analisada na perspectiva de Adorno, esse pensador que sugere que a verdadeira arte é autônoma e resiste à assimilação pelas forças dominantes da sociedade. Porém, questionamos essa pintura entendendo-a dentro do contexto da cultura americana. Onde o artística cedeu à sua assimilação as forças do mercado e da ideologia religiosa dominante, perdendo a autonomia que Adorno considerava essencial para a arte verdadeira. Assim, a Cabeça de Cristo, não apresenta uma resistência estética significativa, como na [FIG.1]. Em vez de desafiar normas ou promover novas maneiras de ver o divino, a obra de Sallman reafirma visões tradicionais. Ao fazer isso, ela falha em cumprir a função crítica e subversiva que Haddock-Lobo valoriza na arte.
A verdade, vista em Lacoste, é confundida com o conforto e familiaridade. Pois com base na concepção desse pensador, beleza e verdade não estão em consonância nessa pintura, pois ela não busca conectar beleza com uma verdade mais profunda que, embora eficazes em termos de devoção popular, não explora a complexidade ou as contradições inerentes à figura histórica de Jesus. A imagem de um Jesus com aparência europeia, comunica implicitamente a ideia de que a aparência é universalmente representativa do divino. No entanto, ela é, na verdade, uma noção imprecisa e problemática em um contexto contemporâneo que é multicultural, que deve ser reimaginada sobretudo no seu contexto principal, o religioso.
Longe de alcançar uma análise aprofundada sobre a evolução artística e a diversidade da representação de Jesus ao longo das épocas, cumprimos com nosso objetivo desta seção. Demonstrando o porquê que a representação artística de Jesus Cristo nas Artes Ocidentais está longe de ser hegemônica ou historicamente precisa. Isso porque em alguns contextos históricos e culturais, cada representação de Jesus adota uma determinada forma e função simbólica. Sendo assim, essas representações foram moldadas por influências culturais, estéticas e ideológicas específicas da Europa renascentista e colonial.
Notas sobre todas as imagens
Na arte bizantina [FIG.2]; [FIG.3], podemos apontar a uma estilização icônica e simbólica, cujo foco se dá na transcendência e na divindade de Jesus. A arte Medieval [FIG.4]; [FIG.5]; [FIG.6], mais simbólica e menos realista, retrata Jesus em cenas que destacam sua divindade e eventos milagrosos. Já no contexto do Renascimento [FIG.7], um movimento em direção ao realismo, traz uma humanização de Jesus, com um foco renovado na anatomia humana e nas expressões de caráter emocionais.
Já na arte moderna e contemporânea [FIG.8]; [FIG.9]; [FIG.10], a representação de Jesus tornou-se ainda mais diversificada. Como ressaltamos, ela reflete influências de diferentes culturas e movimentos artísticos. Nesse contexto, há uma atenção – ou ao menos deveria – a contextos característicos do mundo contemporâneo. Ou seja, a temas de justiça social, inclusão e diversidade. O que paradoxalmente, reflete nas representações de Jesus que passam a surgir após uma crítica à estetização tradicional.
É nesse sentido, que foi proposto neste artigo questionar a estética nessas três representações características do contexto moderno e contemporâneo. Mas como a estetização eurocêntrica de Jesus Cristo, quando por uma corrente decolonial do mundo contemporâneo, sugere um retorno à representação artística de Jesus Cristo nas artes ocidentais do mundo moderno. Só seria possível explorar a profundidade estética, simbólica e crítica dessas pinturas, pelo fato de terem sido fabricadas em um contexto onde exerceu sobre elas grandes influências que moldaram suas composições, elaborando-as a fim de prescrever elementos da supremacia branca.
Considerações finais
O objetivo deste artigo foi introduzir as questões que norteiam a tese de doutorado, focalizando a crítica às representações artísticas de Jesus Cristo no contexto moderno e contemporâneo. Ao explorar essas imagens, buscamos expor como, sob uma ótica crítica, as representações tradicionais refletem e reforçam, em muitos casos, estruturas de poder e supremacia cultural eurocêntrica. Para enriquecer essa análise, consideramos essencial a inclusão de manifestações artísticas históricas e culturais diversas, embora o foco permaneça em três imagens de tradição ocidental, que exemplificam essas dinâmicas de dominação e exclusão.
A partir das contribuições de Fernando Bermejo Rubio e Antonio Piñero, introduzimos reflexões sobre a possibilidade de um Jesus cuja imagem não se limita ao marginalizado, mas que ativamente confronta e desafia o poder instituído. Como argumenta Bermejo Rubio, a figura de Jesus representa, antes de tudo, um ator subversivo dentro de seu contexto social, e é justamente essa postura de resistência que as representações ocidentais frequentemente deixam de enfatizar. Piñero, de forma semelhante, destaca que a visualidade de Jesus nas artes reflete uma intencionalidade política, que suaviza sua resistência em favor de uma imagem pacificadora, revelando, assim, a ideologia que permeia tais representações.
Do ponto de vista estético e filosófico, as ideias de Theodor Adorno e Rafael Haddock-Lobo também fundamentam a crítica às funções simbólicas e ideológicas dessas representações. Adorno, por exemplo, vê a arte como um espaço onde as tensões sociais e ideológicas se manifestam, de modo que a estética de figuras religiosas pode tanto desafiar quanto reforçar narrativas de poder. Dessa perspectiva, uma análise crítica das imagens de Jesus revela não apenas os elementos estéticos, mas também as camadas de significado político e cultural que carregam. Haddock-Lobo acrescenta que a estética está intrinsecamente ligada ao discurso de poder, observando que as representações artísticas não são meramente estéticas, mas instrumentos ideológicos que consolidam certas narrativas. Assim, a construção da imagem de Jesus em um formato eurocêntrico serve, historicamente, para legitimar uma hegemonia que marginaliza outras identidades culturais.
Nosso objetivo central, portanto, é promover uma reavaliação dessas representações tanto no contexto artístico quanto no religioso, incentivando uma estética que não apenas reconheça, mas celebre a diversidade cultural e histórica de Jesus. Inspirados pela concepção artística de Cícero Moraes na reconstituição facial de figuras históricas, sugerimos que essa revisão imagética deve buscar uma precisão histórica e uma inclusão cultural que ressoem com as experiências de comunidades marginalizadas. Essa perspectiva crítica desafia a concepção dominante nas artes ocidentais, que muitas vezes consolidam uma imagem monolítica e distorcida de Jesus.
A representação de um Jesus Cristo branco carece de um olhar que seja historicamente fiel, evidenciando a necessidade de revisitar e desconstruir essas construções imagéticas. A leitura crítica de imagens desempenha um papel essencial nesse processo, pois possibilita espaços para questionar as representações historicamente imprecisas, ao mesmo tempo em que abre caminhos para novas interpretações mais inclusivas e representativas. A partir de uma abordagem decolonial, propomos que essa reflexão imagética não apenas ressignifique a figura de Jesus Cristo, mas também atue como uma ferramenta de resistência e transformação no campo artístico, histórico e religioso.
Lista de imagens
Figura 1: Concepção artística do designer gráfico especialista em reconstituição facial forense Cícero Moraes [...]. Fonte: BBC BRASIL, site da internet. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cv2jxgkyykro. Acesso em 01 de jul. 2024.
Figura 2: Mosaico Bizantino de Jesus Cristo. Disponível em: https://dolcemorumbi.com/2021/07/16/arte-bizantina-o-primeiro-estilo-de-arte-crista/. Acesso em 01 de jul. 2024.
Figura 3: Christ Pantocrator (Sinai). Autor desconhecido. Disponível em: https://arte-crista.blogspot.com/2017/01/cristo-pantocrator-do-sinai.html. Acesso em 01 de jul. 2024.
Figura 4: (The Crucifixion). A Crucificação. ca. 1330-35. Artista Mestre do Códice de São Jorge (Mestre do Codex De San George). Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/471904. Acesso em 01 de jul. 2024.
Figura 5: The Nativity with the Prophets Isaiah and Ezekiel, 1308-1311. Duccio di Buoninsegna, Sienese, c. 1250/1255. Disponível em: https://www.nga.gov/collection/art-object-page.10.html. Acesso em 01 de jul. 2024.
Figura 6: The Temptation of Christ on the Mountain (A Tentação de Cristo) - Duccio di Buoninsegna, c. 1308-11. Disponível em: https://artsandculture.google.com/asset/the-temptation-of-christ-on-the-mountain-duccio-di-buoninsegna/LAGcgFRm_8beXQ. Acesso em 01 de jul. 2024.
Figura 7: La Résurrection du Christ (A ressurreição de Cristo) - Nicolas Bertin (1730). Disponível em: https://artvee.com/dl/la-resurrection-du-christ/. Acesso em 01 de jul. 2024.
Figura 8: Salvator Mundi (Salvador do Mundo): atribuída a Leonardo Da Vinci. Disponível em: https://www.wikiart.org/pt/leonardo-da-vinci/salvator-mundi-1500. Acesso em 02 de jul. 2024.
Figura 9: O Batismo de Cristo: Leonardo Verrocchio. Disponível em: https://www.wikiart.org/pt/leonardo-da-vinci/o-batismo-de-cristo-1475. Acesso em 02 de jul. 2024.
Figura 10: Head of Christ (1940). Cabeça de Cristo: Warner Sallman. Disponível em: https://theconversation.com/the-long-history-of-how-jesus-came-to-resemble-a-white-european-142130. Acesso em 02 de jul. 2024.
Notas
1. Essa perspectiva busca desmantelar as estruturas de poder e dominação que foram estabelecidas durante a colonização, mas que continuam a influenciar as representações culturais e identitárias.
2. Opto por este termo, uma vez que ele nos permite melhor compreender que fabricação nos remete a uma ideia de algo que é feito conscientemente, objetivando algo com a forma final.
3. A beleza como um dos conceitos centrais da estética. Consultar a obra de Daniel Herwitz (2010).
4. Processo de rotulação de Becker (2008). Ou seja, quando o indivíduo é rotulado como desviante, pois existe o reconhecimento do comportamento do infrator e a percepção como desviante.
5. Ou seja, há um limite epistemológico para a produção de conhecimento histórico sobre Jesus. Todavia, existe um entrecruzamento entre o Jesus histórico e o Jesus Cristo, que diz respeito a um intercâmbio epistemológico que com base na figura tradicional da teologia produz uma história ao contrário dela, que não é de corrente teológica.
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Hudson Silva Lourenço (hudson_history@ufrrj.br). Licenciado em História e mestre em Ciências Sociais, ambos pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), onde fui bolsista FAPERJ até março de 2024. Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) na mesma instituição e bolsista CAPES. Pesquisador no GT: A interferência do Estado na vida da pessoa humana. E-mail: hudson_history@ufrrj.br. Lattes: http://lattes.cnpq.br/4308590625917243.
Recibido: 2 de julio, 2024. Aprobado: 18 de octubre, 2024.